Quarta-feira, Agosto 23, 2006
Sexta-feira, Março 31, 2006
PARA SER PESSOA
(ao amigo Luiz Fernando)
sejas inconseqüente,
não tenhas medidas.
nada desprezes ou aumentes,
nada midas.
assim, tudo o que tocares
terá a validade de um dia,
este grande e invisível
tesouro de nossas vidas.
PAINKILLER
quando me eremito,
mais a evito
do que me permito.
não me permito dar-lhe
uma flor sem fruto,
uma dor sem cura,
uma noite sem amanhecer.
e assim evito
a flor, a dor
e a noite que você
poderia ter, sem objetivo.
quando me eremito,
mais a preservo
do que me privo.
mais a evito
do que me permito.
não me permito dar-lhe
uma flor sem fruto,
uma dor sem cura,
uma noite sem amanhecer.
e assim evito
a flor, a dor
e a noite que você
poderia ter, sem objetivo.
quando me eremito,
mais a preservo
do que me privo.
VEIA POÉTICA
delimitar um espaço,
estabelecer fronteiras.
ser dono de si
e de mais ninguém.
ser livre
como o sangue:
se for parado,
é morte certa.
se for aberta a porta,
também.
ser como o sangue,
que só é vida
quando corre solto
pelo espaço limitado
de quem o contém.
estabelecer fronteiras.
ser dono de si
e de mais ninguém.
ser livre
como o sangue:
se for parado,
é morte certa.
se for aberta a porta,
também.
ser como o sangue,
que só é vida
quando corre solto
pelo espaço limitado
de quem o contém.
Terça-feira, Dezembro 06, 2005
Domingo, Dezembro 04, 2005
A IDADE DA ÁGUIA
no fim suposto da vida,
recolher-se à montanha mais alta.
procurar uma pedra,
tão forte que possa quebrar seu velho bico,
para que nasça outro,
táo forte que possa arrancar suas velhas garras,
para que nasçam outras,
tão fortes que possam arrancar suas velhas penas,
para que nasçam outras,
tão fortes que possam
fazê-la voltar a voar.
recolher-se à montanha mais alta.
procurar uma pedra,
tão forte que possa quebrar seu velho bico,
para que nasça outro,
táo forte que possa arrancar suas velhas garras,
para que nasçam outras,
tão fortes que possam arrancar suas velhas penas,
para que nasçam outras,
tão fortes que possam
fazê-la voltar a voar.
AÑOS DE SOLEDAD (sobre um som de Piazzolla e Mulligan)
estar só, mas ter amigos,
ainda que distantes,
é estar debaixo de uma tempestade
no meio da mata fechada e enxergar,
à luz de um relâmpago,
placas com nomes de ruas.
é estar voltando pra suposta casa
no fim da madrugada de uma cidade estranha
e enxergar bromélias, avencas e samambaias
cobrindo os prédios.
é sorrir sozinho
ao tomar um cálice de vinho,
por saber que chorar sozinho,
jamais,
quando se tem amigos,
ainda que distantes.
011205
ainda que distantes,
é estar debaixo de uma tempestade
no meio da mata fechada e enxergar,
à luz de um relâmpago,
placas com nomes de ruas.
é estar voltando pra suposta casa
no fim da madrugada de uma cidade estranha
e enxergar bromélias, avencas e samambaias
cobrindo os prédios.
é sorrir sozinho
ao tomar um cálice de vinho,
por saber que chorar sozinho,
jamais,
quando se tem amigos,
ainda que distantes.
011205
QUÂNTICO AMOR
jamais imaginei
que um dia a física me explicaria
o que sempre senti e nao sabia.
que apesar de nunca ter estado,
estou com você em algum lugar do universo,
e que este próximo verso,
que aqui dirá longe,
em algum lugar dirá perto.
que um dia a física me explicaria
o que sempre senti e nao sabia.
que apesar de nunca ter estado,
estou com você em algum lugar do universo,
e que este próximo verso,
que aqui dirá longe,
em algum lugar dirá perto.
PROPORÇÃO & PERSPECTIVA
quando crianças,
desenhamos coisas
com valores iguais:
pessoas do tamanho de casas,
carros do tamanho de animais.
quando crescemos,
aprendemos a desenhar
coisas em desproporção:
carros em que não cabemos,
casas em que cabemos demais
e pessoas
de tamanhos desiguais.
desenhamos coisas
com valores iguais:
pessoas do tamanho de casas,
carros do tamanho de animais.
quando crescemos,
aprendemos a desenhar
coisas em desproporção:
carros em que não cabemos,
casas em que cabemos demais
e pessoas
de tamanhos desiguais.
(IN)VENTÁRIO
minhas flautas,
deixo ao primeiro vento
que passar...
minhas faltas,
deixo ao perdão
de quem passou
e eu não soube tocar.
deixo ao primeiro vento
que passar...
minhas faltas,
deixo ao perdão
de quem passou
e eu não soube tocar.
VERTIGO
minhas palavras
estão sempre pairando
em um instante sem volta.
como a mão que do penhasco
se solta,
e a imagem congelada
de um corpo que cai,
entre a escarpa e o mar.
estão sempre pairando
em um instante sem volta.
como a mão que do penhasco
se solta,
e a imagem congelada
de um corpo que cai,
entre a escarpa e o mar.
GUIA PRÁTICO PARA DEIXAR DE SER POETA
chame a água de agá-dois-ó
ache que você se banha sempre
sempre no mesmo mesmo rio
não pense que cause mágoa
por estar sempre sempre só
e banhe-se sempre sempre
no mesmo mesmo rio
banhe-se
magoe
afunde-se
afogue-se
em h2o
converta-se em pó
esqueça a água
desidrate-se
(para Paulo Mendes Campos)
ache que você se banha sempre
sempre no mesmo mesmo rio
não pense que cause mágoa
por estar sempre sempre só
e banhe-se sempre sempre
no mesmo mesmo rio
banhe-se
magoe
afunde-se
afogue-se
em h2o
converta-se em pó
esqueça a água
desidrate-se
(para Paulo Mendes Campos)
ANTES QUE EU ME ESQUEÇA
não esqueça
a porta aberta, a luz acesa
não esqueça
o leite no fogo, a vela sobre a mesa
não esqueça
amarre um barbante, anote na agenda
não esqueça
nada é importante
até que vire uma lenda
não esqueça
anote na agenda, amarre um barbante
não esqueça
que essa história de memória de elefante
só vale na hora de se esquecer
por isso
não se esqueça
a porta aberta, a luz acesa
não esqueça
o leite no fogo, a vela sobre a mesa
não esqueça
amarre um barbante, anote na agenda
não esqueça
nada é importante
até que vire uma lenda
não esqueça
anote na agenda, amarre um barbante
não esqueça
que essa história de memória de elefante
só vale na hora de se esquecer
por isso
não se esqueça
CAMERA OBSCURA
quando criança
tinha medo do escuro
porque tudo cabia ali
naquele quarto de três por três
agora tenho medo de uma página em branco
porque tudo cabe aqui
neste quarto sem paredes
e muitos porquês
tinha medo do escuro
porque tudo cabia ali
naquele quarto de três por três
agora tenho medo de uma página em branco
porque tudo cabe aqui
neste quarto sem paredes
e muitos porquês
Quinta-feira, Maio 26, 2005
Quinta-feira, Maio 12, 2005
PASTEL DE CARNE EM ÓLEO DIESEL
CARA A CARA
dei de cara com a sua
você não foi com a minha
não tive a de pau
pra meter as caras
quebrei a minha
você livrou a sua
fiquei com aquela de tacho
e enfiei a cara no mundo
fui encher a minha
e a sua continua amarrada
FOZ NASCENTE
até que um dia eu me câncer
ou esteja infarto de viver só
vou me banhando em meu próprio ganges
fazendo de cada instante
nascente e foz
SANDMAN
na ampulenta do poeta
segundos são castelos
minutos, praias inteiras
horas: continentes de areia
TRILHA DAS ANTIGAS
sua voz tem a cor
das fronteiras do dia
de manhã é pink floyd
à tardeep purple
entre um e outro sol
solo estou
mais pra blackmore
do que pra gilmour
dei de cara com a sua
você não foi com a minha
não tive a de pau
pra meter as caras
quebrei a minha
você livrou a sua
fiquei com aquela de tacho
e enfiei a cara no mundo
fui encher a minha
e a sua continua amarrada
FOZ NASCENTE
até que um dia eu me câncer
ou esteja infarto de viver só
vou me banhando em meu próprio ganges
fazendo de cada instante
nascente e foz
SANDMAN
na ampulenta do poeta
segundos são castelos
minutos, praias inteiras
horas: continentes de areia
TRILHA DAS ANTIGAS
sua voz tem a cor
das fronteiras do dia
de manhã é pink floyd
à tardeep purple
entre um e outro sol
solo estou
mais pra blackmore
do que pra gilmour
Quarta-feira, Abril 27, 2005
ECO
integrado,
fui só coletivo:
manada,
orquestra,
esquadrilha,
cardume.
indivíduo que não se assume.
o último impala,
comida de guepardo.
um violino stacatto,
à sombra do spalla.
caça seguindo o líder,
sardinha à espera da lata.
apocalíptico,
simplesmente sou:
substantivo.
bicho,
instrumento,
avião.
peixe que habita
as profundas fossas abissais,
suporta a pressão,
e por isso,
conhece como ninguém
os mistérios do mar
e de sua própria
solidão.
fui só coletivo:
manada,
orquestra,
esquadrilha,
cardume.
indivíduo que não se assume.
o último impala,
comida de guepardo.
um violino stacatto,
à sombra do spalla.
caça seguindo o líder,
sardinha à espera da lata.
apocalíptico,
simplesmente sou:
substantivo.
bicho,
instrumento,
avião.
peixe que habita
as profundas fossas abissais,
suporta a pressão,
e por isso,
conhece como ninguém
os mistérios do mar
e de sua própria
solidão.

