De quanta mecânica eu preciso para provar que estou vivo?
De quanto chão eu preciso para provar que resido?
Entre tantas outras, eram essas as essenciais questões que formigavam sua cabeça.
Já havia passado pelo batismo, pela comunhão, pela crisma.
Na crisma, sentiu algo. Quando o bispo ungiu-lhe a testa, sentiu algo que só a maconha, anos depois, o faria sentir. Algo fora de si, algo sem ter definição, uma pomba estuprando a cabeça, uma coroa de espinhos pesando, pesando, pesando...
E aos 15 anos, sentiu todo o peso do Vaticano sobre sua cabeça. Foi convidado pelo monsenhor a ser catequista. E o foi. Aos 15 anos, ensinava o velho testamento a crianças de 10 anos. Ao lado de sua mesa, uma vara de marmelo, para quem não aceitasse o testemunho daqueles que não conheceram o cristo, seja no velho, seja no novo.
Aos 16, conheceu Nietzsche. A perfeita liberdade do ser humano pressupõe que ele não esteja ligado a nenhuma verdade supostamente eterna. Desafiou os dogmas. E foi automaticamente excomungado, pois o Papa não pode fazê-lo a cada um. Pense contra a ressurreição da carne. Excomungado. Pense contra a imaculada concepção. Excomungado. Pense contra o vinho barato virando o sangue de cristo na missa, pense contra a hóstia feita num fundo de quintal virando o corpo de cristo na missa. Excomungado.
E assim, aos 16, ele leu Spinoza, Schoppenhauer, Kant, Hegel, Wittgenstein.
Mas leu, principalmente, a si mesmo.
Foi ao quintal de sua casa. Viu os passarinhos comendo as frutas mais doces. Viu as abelhas sorvendo o sumo das flores mais doces. Enquanto as laranjas e os limões estavam intactos.
Porque quando o fruto é ácido, preferimos a flor.