Segunda-feira, Novembro 02, 2009

SEBO

Passei vinte anos

adquirindo.

Conhecimento, vida, vidas,

esquecimentos.

Sem querer ser, fui,

sem querer ter, tive.

Alimentei-me de Sartre,

Nietszche, Foucald, Neruda.

Alimentei-me de toda parte

do todo que veio antes de mim.

Por isso hoje o todo me alimenta

por toda parte que ando.

Pois devolvo às prateleiras

todos os sonhos de um pienta.

À parte isso, tenho em mim

todos os sebos do mundo.

Quarto do Poeta, Limeira, 17.09.09, 1h04

QUANTA

De quanta mecânica eu preciso para provar que estou vivo?

De quanto chão eu preciso para provar que resido?

Entre tantas outras, eram essas as essenciais questões que formigavam sua cabeça.

Já havia passado pelo batismo, pela comunhão, pela crisma.

Na crisma, sentiu algo. Quando o bispo ungiu-lhe a testa, sentiu algo que só a maconha, anos depois, o faria sentir. Algo fora de si, algo sem ter definição, uma pomba estuprando a cabeça, uma coroa de espinhos pesando, pesando, pesando...

E aos 15 anos, sentiu todo o peso do Vaticano sobre sua cabeça. Foi convidado pelo monsenhor a ser catequista. E o foi. Aos 15 anos, ensinava o velho testamento a crianças de 10 anos. Ao lado de sua mesa, uma vara de marmelo, para quem não aceitasse o testemunho daqueles que não conheceram o cristo, seja no velho, seja no novo.

Aos 16, conheceu Nietzsche. A perfeita liberdade do ser humano pressupõe que ele não esteja ligado a nenhuma verdade supostamente eterna. Desafiou os dogmas. E foi automaticamente excomungado, pois o Papa não pode fazê-lo a cada um. Pense contra a ressurreição da carne. Excomungado. Pense contra a imaculada concepção. Excomungado. Pense contra o vinho barato virando o sangue de cristo na missa, pense contra a hóstia feita num fundo de quintal virando o corpo de cristo na missa. Excomungado.

E assim, aos 16, ele leu Spinoza, Schoppenhauer, Kant, Hegel, Wittgenstein.

Mas leu, principalmente, a si mesmo.

Foi ao quintal de sua casa. Viu os passarinhos comendo as frutas mais doces. Viu as abelhas sorvendo o sumo das flores mais doces. Enquanto as laranjas e os limões estavam intactos.

Porque quando o fruto é ácido, preferimos a flor.

POR DENTRO

É só

quando deparamos

com um corpo morto

(o sangue estirado no asfalto

a pele escorrendo

os ossos calcificando o pus)

que percebemos

tripas nós somos

cruzes

Casa do Poeta, Limeira, 15.04.09, 00h42

ORIGAMI

Não, Deus não é brasileiro.

Deus é um japonês baixinho,

calado e carrancudo,

nos dobrando inteiros

pra fazer seu mundo.

Quarto do Poeta, Limeira, 13.09.09, 03h05

MULHERES

Brechtiano que sou
durante o dia
mantenho um distanciamento crítico

À noite
critico a distância

MULHERES II

Ora, direis, ouvir mulheres?

Pois posso dizer que as ouço

principalmente

quando não falo

e entre suas pernas

sou todo ouvidos

H. G. WELLS

(em terra de cegos quem tem um olho é mentiroso)

- Você quer ser mais ou menos?

- Tudo depende do que é ser mais

e do que é ser menos.

Às vezes é melhor ser mais-ou-menos

do que ser mais ou menos.

Por exemplo...

Ser mais pior

ou menos melhor?

Por mais pior

que sejam os outros

é melhor ser menos

para ser melhor

Pior...

Eita palavrinha esquisita.

Veja bem...

Diga pior, escreva pior...

Repita...

Pior, pior, pior...

Não é uma palavra estranha?

Melhor não fica atrás, é verdade.

Diga melhor, escreva melhor...

Não é uma palavra estranha?

E ainda assim,

melhor é melhor

do que pior.

Pior...

Melhor escrever, dizer e repetir...

Melhor, melhor, melhor...

CLASSIFICADO

Vocalista estilo Greg Allman procura estrumentistas para formar uma puta banda de southern rock. Requisitos básicos... adorar o cheiro de bosta de vaca na beira da estrada e o som de uma slide guitar na madrugada.

19 9657-1926

QUANDO ME FALTO

Quando me falto a ser viço,

me falto para não ser visto.

Como sou.

Marginal, delinquente,

irresponsável, inconsequente.

Para a sociedade,

fui um fracasso.

Pai ausente,

marido distante,

homem de família sem família,

dono de casa sem casa,

rascunho de gente,

nunca o bastante.

Nunca soube ganhar dinheiro,

nunca fui inteiro.

Mas o que era antes

hoje é durante.

Deito a cabeça

no travesseiro do que serei.

Daqui pra diante.

POEMA PRA QUEM QUER UM RUMO

Eu tenho um rumo aqui

como diria Luiz Tatit

Quer saber como é que eu penso?

Quer saber porque eu estou cansado?

Cada vez que eu começo a pensar

Me vem tudo de vez

E eu não penso mais nada

Sabe aquelas noites

sozinho em casa

sem ver TV sem ler sem nada?

Ou você se sente

o mais solitário da madrugada

ou percebe que não estar lá fora

é ter um rumo aqui dentro

Pois quando você se encher de si de você mesmo

Basta se deitar e esperar

que a noite siga seu rumo

Ao invés de sair e deixar

que encham o seu saco

de tanta tanta gente sem prumo

Luiz Pienta, Quarto do Poeta, 23.08.09, 04h51

POEMA A SETE CHAVES

portas abertas...

portas fechadas.

sou um de fora pra dentro.

outro de dentro pra fora...

lá fora me fecho.

aqui dentro me abro...

lá fora me perco...

aqui dentro me acho.

lá fora me confundo.

aqui dentro me reconheço...

a esperar pelo dia em que estarei tão cheio de dentro

que poderei me trancar lá fora.

com a chave de ouro de fechar bocas por fora.

e abrir cabeças por dentro...

PANDORA

Por trás de um uni(co) verso

de um bom poeta

sempre existe

uma intenção secreta

Mas ao

contrário

de uma esfinge

se você não decifrá-la

ela não te devora

só vai embora

O COMEÇO DO FIM

(ou a origem da depressão, ou um papo de bar no mar de ressaca depois da sopa)

_ Tem dias em que você não quer ser mais do que uma ameba!

_ Ei! Mas não foi assim que a raça humana começou?

_Ah, tá! Vamos rachar uma célula?

-Humm, acho que prefiro tomar um aminoácido, véio...

Esse negócio de reprodução assexuada não é comigo, não...

ENTRE MIM E LEMINSKI

Existem muitas diferenças

e algumas coincidências

(Paulo por Paulo, por exemplo,

estou mais pra Mendes Campos)

mas com o tempo percebi

que do quanto me diziam

havia um tanto

Tanto que escrevo

em poucas linhas

o que me demora muito

nas entrelinhas

Tanto que sou polaco

redator publicitário

letrista fraco

mas não gosto de rimas fraquinhas

Como vírgulas e

pontos de exclamação

tanto quanto bebo aos cântaros

o que Jesus da água produziu

Gosto pouco de Drummond

e muito do som que faz a gralha

quando derruba uma pinha

e do pinhão blindado pela casca

Traço uma trilha

graciosa estrada barreada

que me leva das araucárias

ao mel do mar das praias

Coincidências, várias

diferenças?

Por exemplo...

Um quimono não me haicai

muito bem

e ainda não me bashô

nada zen

Luiz Pienta, Quarto do Poeta, Limeira, 23.08.09, 04h26

ANTHEM

(Ode aos despossuídos)

Ó voz !

Voz que está reprimida

pelos calos das ruas !

Voz que sai na

calada da noite

e sulca grandes calados

nas manhãs das avenidas.

Inaugure mares internos,

estreitos de nós,

canais entre infernos,

por onde sangram naus

nas quais Caronte ganharia vida (s).

Ó voz !

Voz que deixa muda a cidade

quando e(s)coa o fel das abelhas !

Voz que cai como mel

no sal das aldeias

e inculca grandes dúvidas

na inconsciência da felicidade.

Vem com seu sonoro arado

preparar o solo de nós,

uníssona fertilidade

de onde nasce o caos

do qual uma ponte leva ao nada.

Ó voz !

Voz que sobe aos (b) (l) ares

enquanto caímos feito moscas, aos tapas !

Voz que não se cala,

palavra que não se fala,

vem queimar por nós !

Nós, quilômetros por hora,

cinzas de vulcão tapando o sol,

hordas nucleares, hidrogênios,

meteoro, terra virando pó,

uma raça a menos, não demora...

Ó voz !

Tão pouco tempo, tanto espaço...

Tão pouco nos ouvimos

que um dia (dia?)

não haverá ninguém

a voz ouvir

na solidão do vácuo

Quarto do Poeta, Limeira, 01.09.09, 23h55

Quarta-feira, Agosto 23, 2006

CONJUNÇÃO



quando meu verbo que adentra
se encaixa em tua palavra que recebe
(feminino substantivo)

é outra a caneta, outra a tinta
que escreve e pinta
uma noite rica em adjetivos

quando minhas reticências
encontram teu ponto final
vocábulo inteiro em ti

Sexta-feira, Março 31, 2006

PARA SER PESSOA

(ao amigo Luiz Fernando)

sejas inconseqüente,
não tenhas medidas.
nada desprezes ou aumentes,
nada midas.

assim, tudo o que tocares
terá a validade de um dia,
este grande e invisível
tesouro de nossas vidas.

PAINKILLER

quando me eremito,
mais a evito
do que me permito.

não me permito dar-lhe
uma flor sem fruto,
uma dor sem cura,
uma noite sem amanhecer.

e assim evito
a flor, a dor
e a noite que você
poderia ter, sem objetivo.

quando me eremito,
mais a preservo
do que me privo.

VEIA POÉTICA

delimitar um espaço,
estabelecer fronteiras.
ser dono de si
e de mais ninguém.

ser livre
como o sangue:

se for parado,
é morte certa.
se for aberta a porta,
também.

ser como o sangue,
que só é vida
quando corre solto
pelo espaço limitado
de quem o contém.

Terça-feira, Dezembro 06, 2005

Nota chata porém necessária...

Todas as obras estão protegidas por registro em cartório e ISBN.

Domingo, Dezembro 04, 2005

A IDADE DA ÁGUIA

no fim suposto da vida,
recolher-se à montanha mais alta.


procurar uma pedra,
tão forte que possa quebrar seu velho bico,
para que nasça outro,
táo forte que possa arrancar suas velhas garras,
para que nasçam outras,
tão fortes que possam arrancar suas velhas penas,

para que nasçam outras,
tão fortes que possam
fazê-la voltar a voar.

AÑOS DE SOLEDAD (sobre um som de Piazzolla e Mulligan)

estar só, mas ter amigos,
ainda que distantes,
é estar debaixo de uma tempestade
no meio da mata fechada e enxergar,
à luz de um relâmpago,
placas com nomes de ruas.


é estar voltando pra suposta casa
no fim da madrugada de uma cidade estranha
e enxergar bromélias, avencas e samambaias
cobrindo os prédios.


é sorrir sozinho
ao tomar um cálice de vinho,
por saber que chorar sozinho,
jamais,
quando se tem amigos,
ainda que distantes.


011205

biografia

para um poeta,
viver é câncer.
morrer, metástase.

QUÂNTICO AMOR

jamais imaginei
que um dia a física me explicaria
o que sempre senti e nao sabia.


que apesar de nunca ter estado,
estou com você em algum lugar do universo,
e que este próximo verso,
que aqui dirá longe,
em algum lugar dirá perto.

PROPORÇÃO & PERSPECTIVA

quando crianças,
desenhamos coisas
com valores iguais:


pessoas do tamanho de casas,
carros do tamanho de animais.


quando crescemos,
aprendemos a desenhar
coisas em desproporção:


carros em que não cabemos,
casas em que cabemos demais
e pessoas
de tamanhos desiguais.

(IN)VENTÁRIO

minhas flautas,
deixo ao primeiro vento
que passar...


minhas faltas,
deixo ao perdão
de quem passou
e eu não soube tocar.

VERTIGO

minhas palavras
estão sempre pairando
em um instante sem volta.


como a mão que do penhasco
se solta,
e a imagem congelada
de um corpo que cai,
entre a escarpa e o mar.

GUIA PRÁTICO PARA DEIXAR DE SER POETA

chame a água de agá-dois-ó

ache que você se banha sempre
sempre no mesmo mesmo rio


não pense que cause mágoa
por estar sempre sempre só


e banhe-se sempre sempre
no mesmo mesmo rio


banhe-se
magoe
afunde-se
afogue-se


em h2o

converta-se em pó
esqueça a água
desidrate-se


(para Paulo Mendes Campos)

ANTES QUE EU ME ESQUEÇA

não esqueça
a porta aberta, a luz acesa
não esqueça
o leite no fogo, a vela sobre a mesa
não esqueça
amarre um barbante, anote na agenda
não esqueça
nada é importante
até que vire uma lenda
não esqueça
anote na agenda, amarre um barbante
não esqueça
que essa história de memória de elefante
só vale na hora de se esquecer
por isso
não se esqueça

CAMERA OBSCURA

quando criança
tinha medo do escuro
porque tudo cabia ali
naquele quarto de três por três


agora tenho medo de uma página em branco
porque tudo cabe aqui
neste quarto sem paredes
e muitos porquês

Quinta-feira, Maio 26, 2005

QUEM ME TOMA POR SÃO NUNCA ME VÊ POR INTEIRO

Quinta-feira, Maio 12, 2005

PASTEL DE CARNE EM ÓLEO DIESEL

CARA A CARA
dei de cara com a sua
você não foi com a minha

não tive a de pau
pra meter as caras

quebrei a minha
você livrou a sua

fiquei com aquela de tacho
e enfiei a cara no mundo

fui encher a minha
e a sua continua amarrada


FOZ NASCENTE
até que um dia eu me câncer
ou esteja infarto de viver só
vou me banhando em meu próprio ganges
fazendo de cada instante
nascente e foz


SANDMAN
na ampulenta do poeta
segundos são castelos
minutos, praias inteiras
horas: continentes de areia



TRILHA DAS ANTIGAS
sua voz tem a cor
das fronteiras do dia
de manhã é pink floyd
à tardeep purple

entre um e outro sol
solo estou
mais pra blackmore
do que pra gilmour